Product Discovery

Quando todo mundo entende o problema

Como criar as condições para que o time inteiro entenda o problema profundamente o suficiente para tomar decisões melhores.

Afrânio Cavalcante

Afrânio Cavalcante

Product Manager

Junho de 2026

7 min de leitura

Dá para fazer tudo o que costuma ser considerado um bom discovery e ainda assim tomar decisões ruins. Fazer entrevistas toda semana, manter a OST atualizada, ter uma boa cadência de trabalho. Nada disso garante que o time está entendendo o problema certo. Já vi times muito disciplinados em discovery chegarem a soluções pouco relevantes. Com o tempo, comecei a perceber que isso acontece quando o processo vira o foco principal. A equipe continua executando todas as etapas, mas para de questionar algumas premissas básicas.

Nos times que mais me marcaram, a diferença não estava na quantidade de rituais ou artefatos, e sim no quanto as pessoas entendiam o contexto por trás das decisões. O engenheiro conseguia olhar para uma ideia e perceber algo estranho antes dela ser construída, o designer levantava dúvidas sobre uma solução antes mesmo de começar a prototipar. E essas atitudes nasciam do alto contexto que eles estavam inseridos, contexto esse, que obviamente não nascia sozinho.

Cada pessoa saía com observações diferentes

Uma das coisas que mais me ajudou foi incluir o trio de produtos (PM, designer, engenharia) em algumas entrevistas com usuários sempre que a conversa tinha potencial para influenciar decisões importantes.

O que acontecia era que cada pessoa saía da mesma entrevista com observações diferentes. O engenheiro prestava atenção em detalhes operacionais que eu talvez ignorasse, o designer captava comportamentos e expectativas que passariam despercebidos para mim. E quando a conversa acabava, a discussão era muito mais rica do que qualquer repasse que eu pudesse fazer depois.

Lembro de um caso envolvendo um filtro de datas em um dashboard.

A ideia parecia simples: dar liberdade para que o usuário escolhesse qualquer período que quisesse analisar.

Durante uma entrevista, o engenheiro que estava participando comentou uma coisa que mudou nossa leitura do problema. O usuário não falava em datas específicas. Ele falava em períodos. Últimos 7 dias. Últimos 30 dias. Últimos 90 dias. Era assim que ele organizava o trabalho.

A partir dali, a solução mudou.

A experiência ficou mais simples para o usuário e, por consequência, evitamos um problema técnico que ainda nem tinha aparecido, mas que já estava na cabeça do engenheiro. Nossa arquitetura provavelmente sofreria se começássemos a permitir consultas muito extensas.

Nenhuma dessas coisas tinha surgido nos refinamentos anteriores.

Comportamentos, não previsões

Outro aprendizado veio das próprias entrevistas.

No começo da minha carreira, eu fazia muitas perguntas sobre opinião. O que você acha disso? Você usaria essa funcionalidade? O que te incomoda no produto?

As respostas quase sempre pareciam úteis na hora, mas raramente ajudavam a tomar decisões melhores depois.

Com o tempo, comecei a pedir exemplos concretos. Em vez de perguntar o que incomodava alguém, eu perguntava quando tinha sido a última vez que aquela pessoa enfrentou um problema usando o produto. Em vez de perguntar o que ela faria no futuro, tentava entender o que ela já tinha feito.

A diferença nas respostas era enorme.

As pessoas costumam ser muito melhores em relatar comportamentos do que em prever comportamentos.

A OST como espaço compartilhado

A Opportunity Solution Tree acabou entrando como uma forma de organizar essas conversas e manter o time alinhado ao longo do tempo.

Normalmente eu começava com um outcome vindo das discussões com liderança e, a partir daí, a árvore ia sendo construída junto com o trio. Qualquer pessoa podia trazer uma oportunidade para discussão, e os encontros serviam para explorar essas oportunidades antes de falar sobre solução.

A OST ficava visível para todo o time.

Nunca funcionou bem para mim quando era tratada como um documento do PM. Ela sempre fez mais sentido quando servia como um espaço compartilhado para organizar o que estávamos aprendendo.

Memórias de conversas, não de processos

Hoje, quando penso nos melhores times com que trabalhei, as memórias mais vívidas não são de processos, e sim das conversas, das pessoas que entendiam o problema profundamente o suficiente para discordar, complementar e perceber algo que os outros ainda não tinham visto.

Talvez seja isso que mais importa: criar condições para que esse entendimento seja compartilhado pelo time. Porque quando todo mundo entende o problema, as decisões costumam ficar melhores quase como consequência.

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